"CONTESTAR AS OPINIÕES ERRÔNEAS QUE CONTRA NÓS ESPÍRITAS SÃO APRESENTADAS; REBATER AS CALÚNIAS; APONTAR AS MENTIRAS; DESMASCARAR A HIPOCRISIA; TAL DEVE SER O AFÃ DE TODO ESPÍRITA SINCERO, CÔNSCIO DOS DEVERES QUE LHES SÃO CONFIADOS”.
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publicado por evangelicosfalsosprofetas, em 15.05.10 às 00:02link do post | favorito

 

É imprescritíveis o direito  de exame e de crítica e o Espiritismo não alimenta a pretensão de subtrair-se ao exame e à crítica, como não tem a de satisfazer a toda  gente. Cada um é, livre de o aprovar ou rejeitar;  mas, para isso, necessário se faz discuti-lo com conhecimento de causa. Ora, a crítica tem por demais provados que lhe ignora os mais elementares princípios, fazendo-o dizer precisamente o contrário do que ele diz, atribuindo-lhe o que ele desaprova, confundindo-o com as imitações grosseiras e burlescas do charlatanismo, enfim, apresentando, como regra de todas as excentricidades de alguns indivíduos. Também por demais a malignidade há querido torná-lo responsável por atos repreensíveis ou ridículos, nos quais o seu nome foi envolvido incidentemente, e disso se aproveita como arma contra ele.

Antes de imputar a uma doutrina a culpa de incitar a um ato condenável qualquer, a razão e a equidade exigem que se examine se essa doutrina contém máximas que justifiquem semelhante ato.

Para conhecer-se à parte de responsabilidade que, em dada circunstância, caiba ao Espiritismo, há um  meio muito simples: proceder de boa fé a uma perquirição, não entre os adversários, mas na própria fonte do que ele aprova e do que condena. Isso é tanto mais fácil, quanto ele não tem segredos; seus ensinos são patentes e quem quer que seja pode verificá-los.

Assim, se os livros da Doutrina Espírita condenam explícita e formalmente um ato justamente reprovável; se, ao contrário, só encerram instruções de natureza a  orientar para o bem, segue-se que não foi neles que um indivíduo culpado de malefícios se inspirou, ainda mesmo que os possua.

O Espiritismo não é solidário com aqueles a quem apraza dizerem-se espíritas, do mesmo modo que a Medicina não o é com os que a exploram, nem a sã religião com os abusos a até crimes que se cometam em seu nome. Ele não reconhece como seus adeptos senão os  que lhe praticam os ensinos, isto é trabalham por melhorar-se moralmente, esforçando-se por vencer os  maus pendores, por ser menos egoístas e menos orgulhosos, mais brandos, mais humildes, mais caridosos para com o próximo, mais moderado em tudo, porque  é essa a característica do verdadeiro espírita.

Esta breve nota não tem por objeto refutar todas as falsa alegações que se lançam o Espiritismo, nem lhe desenvolver e provar todos os princípios, nem ainda menos, tentar converter a esses princípios os que professem opiniões contrárias; mas, apenas,  dizer, em poucas palavras, o que ele é e o que não é,  o que admite e o que desaprova.

As crenças que propugna, as tendências que manifesta e o fim a que visa se resumem nas proposições seguintes:

 

  O elemento espiritual e o elemento material são dois princípios, as duas forças vivas da Natureza, as quais se completam umas a outra e reage incessantemente uma sobre a outra, indispensáveis ambas ao funcionamento do mecanismo do Universo.

Da ação recíproca desses dois princípios se originam fenômenos que cada um deles, isoladamente, não tem possibilidade de explicar.

À ciência,  propriamente dita, cabe a missão especial de estudar as leis da matéria.

O Espiritismo tem por objeto o estudo do elemento espiritual em suas relações com o elemento material e aponta na união desses dois princípios a razão de uma imensidade dos fatos até então inexplicados.

O Espiritismo caminha ao lado da Ciência, no campo da matéria: admite todas as verdades que a Ciência comprova; mas, se detém onde esta última pára: prossegue nas suas pesquisas pelo campo da espiritualidade.

   Sendo o elemento espiritual um estado ativo da Natureza, os fenômenos em que ele intervém estão submetidos a leis e são por isso mesmo tão naturais quanto os que derivam da matéria neutra.

Alguns de tais fenômenos foram  reputados sobre-naturais, apenas por ignorância das leis que os regem . Em virtude desse princípio, o Espiritismo não admite o caráter de maravilhoso atribuído a certos fatos, embora lhes reconheça a realidade ou a possibilidade. Não há, para ele, milagres, no sentido de derrogação das leis naturais, donde se segue que os espíritas não fazem milagres e que é impróprio o qualificativo de taumaturgos que umas tantas pessoas lhes dão.

O conhecimento das leis que regem o princípio espiritual prende-se de modo direto à questão do passado e do futuro do homem. Cinge-se a sua vida à existência atual? Ao entrar neste mundo, ele vem do nada e volta para o nada ao deixá-lo? Já viveu e ainda viverá? Como viverá e em que condições?  Numa palavra: donde vem  ele e para onde vai ? Por que está na Terra e por que  sofre aí? Tais questões que cada um faz a si mesmo, porque são para toda gente de capital interesse e às qual ainda nenhuma doutrina deu solução racional.  A que lhe dá o Espiritismo, baseada em fatos,  por satisfazer às exigências da lógica e da mais rigorosa justiça, constitui uma das causas principais da rapidez da sua propagação.

O Espiritismo não é uma concessão pessoal, nem o resultado de um sistema preconcebido. É a resultante de milhares de observações feitas sobre todos os pontos do globo e que convergiram para um centro que os coligiu e coordenou. Todos os seus princípios constitutivos, sem nenhuma exceção de nenhum, são deduzidos da experiência. Esta precedeu sempre a teoria.

Assim, desde o começo, o Espiritismo lançou raízes por toda parte. A História nenhum exemplo oferece de uma doutrina filosófica ou religiosa que, em dez anos, tenha conquistado tão grande número  de adeptos. Entretanto, não empregou, para se fazer conhecido. Nenhum dos meios vulgarmente em uso; propagou-se por si mesmo, pelas simpatias que inspirou.

Outro fato não menos constante é que, em nenhum país, a sua doutrina não surgiu das íntimas camadas sociais; em todos os lugares ela se propagou de cima  para baixo na escala da sociedade e ainda nas classes esclarecidas que se acha quase exclusivamente espalhadas, constituindo insignificante minoria, no seio de seus adeptos, as pessoas iletradas.

Verifica-se também que a disseminação do Espiritismo seguiu, desde os seus primórdios, marcha sempre ascendente, a despeito de tudo quanto fizeram seus adversários para entravá-las e para lhe desfigurar a ele o caráter, com o fito de desacreditá-lo na opinião pública. É mesmo de notar-se que tudo o que  hão tentado com esse propósito lhe favoreceu  a difusão; o arruído que provocaram por ocasião do seu advento fez que  viessem a a; quanto mais procuraram denegri-lo ou ridiculizá-lo, tanto mais despertaram as curiosidades gerais e, como todo exame só lhe pode ser proveitoso, o resultado foi que seus opositores se constituíram, sem o quererem, ardorosos propagandistas seus. Se as diatribes nenhum prejuízo lhe acarretaram, é que os que o estudaram em suas legítimas fontes o reconheceram muito diverso do que o tinham figurado.

Nas lutas que precisou sustentar, os imparciais lhe testificaram a moderação; ele nunca usou de represálias com os seus adversários, nem respondeu com injúrias as injúrias.

O Espiritismo é uma doutrina filosófica de efeitos  religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que forçosamente vai ter às bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas, não é  uma religião constituída, visto que não culto, nem rito, nem templos e que, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote ou de sumo-sacerdote. Estes qualificativos são de puras invenções da crítica.

É-se espírita pelo só fato de simpatizar com os princípios da doutrina e por conformar com esses princípios o proceder. Trata-se de uma opinião como qualquer outra, que todos têm o direito de professar, como têm o de serem judeus, católicos, protestantes, simonistas, voltairiano, cartesiano, deísta e, até, materialista.

O Espiritismo proclama a liberdade de consciência como direito natural; reclama-a para seus adeptos, do mesmo modo que para toda a gente. Respeita todas as convicções sinceras e faz questão de reciprocidade.

Da liberdade de consciência decorre o direito de livre exame em matéria de fé. O Espiritismo combate à fé cega, porque ela impõe ao homem que abdique da sua própria razão; considera sem raiz toda fé imposta, donde o inscrever entre suas máximas: NÃO É INABALÁVEL, SENÃO A FÉ QUE PODE ENCARAR A RAZÃO EM TODAS AS ÉPOCAS DA HUMANIDADE.

Coerente com seus princípios, o Espiritismo não se impõe a quem quer que seja; quer ser aceito livremente e por efeito de convicção. Expõe suas doutrinas e acolhe os que voluntariamente o procuram.

Não cuida de afastar pessoa alguma das suas  convicções religiosas; não se dirige aos que possuem uma fé e a quem essa fé basta; dirige-se aos que, insatisfeitos com o que lhes dá, pede alguma coisa melhor.

 

                                                                                                   Allan  Kardec

                                                                                      Livro  Obras  Póstumas

 

 


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